Rô Acunha Rô Acunha

tempo de mudar

a mudança chega em convite

um pensamento fora do eixo

um incômodo, um desfecho,

é o “e se ” que ganha vida

uma calça velha tingida

é a fresta fria da janela

o primeiro arroz em nova panela

é o passo torto da criança

ou o adeus àquela lembrança

que doía e resistia

à mudança;

mas... sabe a parte boa?

a mudança não quer pressa,

ela te entende, ainda nessa

mesmice, e há quem diga

que ela até gosta de

esperar, é parte dela

repetir às novas eras:

tudo isso vai passar

e que bom que passará,

melhor do que mudar a tempo

é tornar-se tempo de mudar.

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

busca de mim

já falei o que precisava

já fiz bom uso da palavra

agora, ainda falarei de você

mas não espere vê-las

ou ouvi-las,

vento é mensageiro

mas, primeiro

é verdadeiro

não soprará a você

meus devaneios

em rimas partidas,

talvez as encontre

você mesmo

ao parque, nas águas

nas saídas desse mundo

onde você deixou

cada verso seu

que antes eram meus,

quer me dizer quem sou

novamente? tente,

te obrigarei a ler-me

primeiro

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

coadjuvante

todos sentados

nesse chão gelado,

em cartas de mesa

respeito a destreza

do embaralho,

sou mais um, apenas,

desentendidos contextos

em cenas e textos

projetados,

se é real, não leve a mal

mas me dói sua presença,

o jogo é a descrença

que se põe

os olhos não se veem

eu não me sinto bem

rastreio na memória

cada toque que é trocado,

tocado já por outro

e toca solto, no presente

não importa o que me sente.

sobra nada desse sonho

só lembrança degradante

de um coadjuvante

sem um resolver decente

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

sobrelua

em sobrelua

(quando a minha for a sua)

beijaremos

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

costume

não te vejo pra ficar

seu passo não me espera

seu toque não esquenta

seu corpo me afasta,

junto à pressa e mala rasa,

seu vestígio irrelevante

não destaca a sua cor,

mesmo que logo levante,

não destrincho a sua dor,

como seus restos cansados

que se perdem como tantos,

nunca saberão encantos,

nunca ouvirão seus prantos,

nunca chegarão tão perto

quanto os versos que escrevo,

me atrevo e sigo seu caminho

por instante, de mansinho,

vejo aquilo que nos une,

meu vagar indiferente

também segue essa corrente:

repetimos o roteiro

costume

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

cansaço

da espera, o tempo em denúncia

cúmplice do atraso, álibi em demora

somos casos sem hora, o mero avesso da pressa

aquela que só interessa na reserva do meio,

de passagem, sem assento

sem desconto, compra a dor

e engole choro alheio,

no aperto dos corpos amassados

tem a frente e quer o lado

pra virar mais gente,

há quem tente!

sem sucesso, tudo o que peço

é a vitória do cansaço,

por favor, me tenha em

seu braço, acabe com isso!

prometo chegar ao compromisso

mesmo que omisso

ao sufoco que, hoje, passo.

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

descanse

não goste de escrever sobre palavras

não gosto da metalinguagem poética

quando se chega aqui, reconheça,

acabou o combustível,

a vida cedeu suas inspirações,

o coração parou de absorver,

o que há? o que foi?

o que atravessa o sentir?

há gosto em descansar, sabia?

há tempo que se para de tentar,

é certo o não encontrar,

respirar o que atravessa e não fica,

lidar com a dor de desaprender

a guardar, a dar nome a tudo,

é parte da receita de mundo

conseguir esquecer, separar,

sair do centro e olhar por olhar,

lembrando do amanhã que chega,

e chegará.

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

sobreouvir

ao meu silêncio, escuto

sua vida me atravessa

seu interesse, seu destino,

seu medo repentino,

e agora?

o que faço com isso?

sua parte passageira

parte inteira ou fragmentada?

a que fica comigo

foi sentida ou foi roubada?

não sei de perto

memória tem dono?

não sei se abandono

ou me alimento,

quanto ao certo, ainda tento

ver, o que fica no fim?

ao soubreouvir,

me vejo atento

ao conto lento,

torno-te parte de mim

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

ida

quem parte, convida

ao gole amargo da ida

respira estradas passageiras

conversas sem linhas ou beiras

na espera do gosto da chegada

iminente, traz fim ao movimento

de fora, concede a dança ao peito

que pensa de dentro,

congela o tempo para encenar

a passagem do medo que

a distância traz,

refaz seus caminhos de pontos

de vista outrora incapaz

e percebe:

a ida é a bebida doce

por mais forte que fosse,

desce

e pede por mais,

na chegada de destinos

por seus carros ou sinos

não sabe ainda, mas quer

provar um pouco mais

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

protocolo

eu preciso dizer

seu horário não me importa,

meu horário não lhe afeta,

deste chão azul que cerca

interligam-se acasos,

nunca desconfiaríamos

que deitamos lado a lado

em 100 anos deste tempo,

mesmo na chance e momento

de escrever a nova linha,

não quebre a minha!

não falhe ao protocolo,

feche a cara e siga à frente,

finja ser sobrevivente

do sistema trivial,

deixe a mim ser dissertivo

ao falar do coletivo

sozinho,

individual

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

vendo-te

queria fechar os olhos e ver

queria deixar a brisa falar

não é fácil, nunca foi

me impedir de questionar a realidade

as verdades que cercam

os sentimentos que afetam

as vozes já conversam comigo

a intuição já confiante e falante

diz pra tentar de novo

é como ver luz em recomeço

ou levantar do tropeço

um respiro de outro dia

uma história das antigas

pra fazer sentido hoje, pode?

mesmo não a vendo, parece que eu a veria

se eu parasse

de tentar

enxergá-la

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

lendo-te

olha, sinto muito

minhas palavras cresceram

minhas verdades soltaram

meu olhar insistiu,

saí em busca das respostas

achando que quisesse ouvi-las,

só para ler em suas costas

uma quase essência, um pergaminho

que se lê baixinho, em segredo

uma quase culpa em interpretar

por inteiro cada palavra e sentido,

o medo escondido em silêncios e frases ao meio,

a vontade em respirar a própria vida,

a pergunta que acumula na rotina,

o espaço cheio e ocupado e tão vazio e empoeirado,

o cansaço no amanhã não ser como o do vizinho do lado,

é preocupação e esperança, é dança que olha onde pisa

com sorte e com a lembrança, torce por um sol que avisa:

eu vejo você, vejo sua intenção em ser

vejo um doce que traz um amargo

vejo um canto que só canta assoviado

vejo a vontade em dizer "eu te amo"

vejo o gosto de quem se joga com o corpo

mas calma, a alma não é só feita disso

se for delírio, ignore

se for sentido, apavore

carregamos muitas verdades parecidas

essas que, sem opção, lutei para entender na vida

e é por isso que eu olho assim

antes e agora

sou um outro você

doído, perdido, mandado

sozinho, aflito, calado

confiando em caninos pra esbaldar afeto

nadando em água fria e conversas com o teto

mas a mim, tive um privilégio:

me olhei com tanta força e vontade

que me vi na outra metade

cumprimentei de longe uma pessoa sem medo ou culpa

uma pessoa que busca fala na escuta

que junta quebra-cabeças como uma criança

mas que olha pra frente e ainda dança

então olha só:

não escrevo pra apontar ou revelar

escrevo para compartilhar

sou experimento que fugiu de laboratório,

que arrancou raízes, negou o próprio velório,

desafiou o tempo e o futuro ilusório

pra se olhar, pra se ver

e só acredito que seja assim

somente assim

que a sua luz também

queira acender

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

desculpa

eu queria conhecer você de novo

do zero, do começo

te abraçar mais forte

dizer que eu te entendo ainda mais

que eu vou te amar no dia seguinte também

se apressa não, eu não deixaria

te olharia mais nos olhos

porque conheceria as suas dores,

te daria de volta

todos os calores

que me fizeram o que eu sou hoje,

p0rque você esteve lá

quando eu mais precisei,

quando eu caí, quando eu errei

você foi quem viu algo em mim

antes de eu falar "eu sei"

e eu realmente soube muito

e não saberia nada sem você,

sem o teto branco que nos olhava

sem a janela entreaberta pra estrada

sem a companhia pra pensar solto

sem o toque e o olhar torto

que contavam tanto, tanto

que contaram nosso tempo também

contaram que o presente é só um momento

e que não devíamos desviar

é tão rápido, rápido demais pra evitar

mas denso, profundo, em tudo que existe

eu sabia que aquele era o lugar,

lugar que eu deveria e queria estar,

por isso, talvez nunca chegue a hora

de ler isso na voz alta que me faz

mas eu vejo, hoje, tudo, tudo o que importa

e eu queria te agradecer um pouco mais

seja aos céus nas estrelas mensageiras

seja ao vento das brisas passageiras

seja ao sol, fim de tarde adormecido

seja ao mar, onda que vem e vai indo

desculpa

desculpa

desculpa

e obrigado

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

distante

e se eu perder o juízo?

e se eu tirar da frente

essa busca por sentido

o que sobra, o que somos?

toco a mão do vento e danço?

ensaio em casa o seu balanço?

escrevo em caixa alta o espanto

em ver cor no sorriso manso?

envolto em perguntas ainda discretas

trocado por frases que falam nas indiretas

e contam, na medida incerta

o quão difícil é abrir mão

de si, da explicação,

quando um sentimento desperta,

ainda mais aquele que volta!

que segura a mão e solta

ilumina e "alumeia"

no tropeço, pega o pulo

e torna mundo um grão de areia,

precisamente na estação

em que me vejo como outono,

como folha seca ao norte

pra nem depender da sorte:

sopro o som e sigo a brisa

essa em que você me avisa:

ainda vamos muito longe

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

à caminho

o que sinto? o que devo sentir?

em misto de agonia e comédia e epifania

me vejo atento, imerso em cada sentimento

novo, nem tanto, juntos, são quantos quiserem ser

quantos moldarem o que vou ver

e quando conversarem, sóbrios,

saberei que cheguei lá...

eu, não! o que farão de mim

eu ainda nem os conheço, nem ouso dizer

a graça existe em se perceber, no caminho

já passava devagarinho aqui do lado

precisou reconhecer o ignorado...

há! ele quase chegou lá

sozinho

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

vida engraçada

ontem, aprendi a te amar de novo

um pouco tarde demais

alguns anos a mais

mas aprendi,

entendi a sua voz cansada

em fim do dia,

entendi a sua respiração

atrasada que me dizia

"ei, queria você aqui do meu lado"

ocupando espaços imaginários

de afeto, aconchego, sendo até demais,

sendo parte sua, tendo a sua parte

em tantas minhas, em linhas matinais

em café e piada, trocando sinais

nos gestos verbais,

vida engraçada...

ontem, aprendi a te amar de novo

mesmo não estando mais

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

viajante

vales, campos, dizeres

lares, tempos e seres

a viagem de um tempo

no momento mais preciso

em que preciso conhecer

mais de uma vez

o que vai ser

de mim,

o que vai ser?

sem calçada nem calçado

sol nascente é sol do lado

já me abraça sentimentos

de uma vida em meados

de janeiros, fevereiros

meia lua e sóis inteiros

somos nós em nós, faceiros

obras de algum feiticeiro

que cansou do mar ligeiro

e trouxe onda! toda a brisa

entardece e nem avisa

falta cor no céu de pedra

sobra amor em sobrevista

em que a pedra nem se pole

nem precisa, já em si, está

a noite que nos guarda

pega a mão que é gelada

trás pra dentro, encaixa certo

trás bem perto, o resto invento

nem preciso mais falar

da história de um viajante

que em colina verdejante

trouxe o canto a quem encante

e renovou o dom de amar

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

espelho

ontem, você me enxergou

no toque, embaixo dos panos, deixei que falasse

na mão doce, à vontade, derramei sem classe o pudor

como quem sabe a cor do seu cheiro

escondido em cada travesseiro no caminho, eu vi

vi você de cima a baixo, vi o canto da cintura que encaixo

vi voracidade em olho atento, vi você vivendo o momento

e se perdendo no que foi criado sem ter pensado,

o corpo chaveado se abre em alma-chave do lado,

contorce o tempo que passa lá fora

permeia em toques que acertam local e hora

de serem tocados, sentidos, mordidos, jogados,

respiros, suspiros, odores e tatos

sorriso inquieto e inocente, quase amor adolescente

aquele que viaja sem saber da volta,

que entrega a vida em mão que solta,

que dança em fogo que não queima

que sobrevive a vida mas ainda teima em vivê-la

e vê-la com o olhar mais sincero, mais puro

olhar que entra fundo e entende, sente...

no reflexo, em troca,

apresento tudo que você é e não consegue ver

tudo que você esconde e que ainda vai ser

é uma loucura, esse papo de maluco

em que a palavra sai da frente

e o que resta é tudo...

ontem, você me enxergou

e eu te enxerguei de volta

tudo que você não conta, escapa

tudo que você odeia, é falta

tudo que você respira, é vontade de ser lida em luz alta

forte, imponente, no controle da pira da mente

se torna o ambiente como rocha

exposta a tanto, em qualquer canto

na metamorfose metamórfica

mostra em camadas a beleza em resistir ao tempo,

que mesmo lento, machuca, causa rachadura

mas acorda em manhã de esperança

com sol ao leste trazendo a lembrança

de que amanhã é um novo dia...

não escrevo do lugar apaixonado,

alucinado, iludido ou emocionado

escrevo como espelho limpo

claro e a reluzir,

quando me olham e me tem

se vem, e que bom ser assim

já é a minha verdade

e que todo o amor que exista em frente

na conexão de vidas mais diferente

só exista em liberdade

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

amor de mão única

em português, a gente diz saudade

em poesia, tudo que deixa vazia

metade da casa, o rádio parado

outrora dançava, a chuva da tarde

que antes molhava, sabia?

que mesmo na busca da cura do peito,

sabendo que dor tinha

causa e efeito, ardia?

era uma coceira, uma alergia

ainda bem que não contagia

seria epidemia de novo,

ter saudade sua

na boca do povo

que agonia!

não desejo a ninguém...

sozinho, carrego peso de mundo

sentindo que o próximo segundo

será também...

em português, a gente diz saudade

mas na verdade, a vontade é

é de inventar palavra nova

que respira, que chora

em hora de ir embora

ali estaria,

que doa mais, que sirva mais

que encaixe mais, que sofra

mas eu?

não sofreria

se, com força, expressasse

e na palavra, justificasse

amar

em uma só via.

Leia mais
Rô Acunha Rô Acunha

e agora?

completamos o amor

e agora?

nada mais falta

é

preciso ir embora.

Leia mais