tempo de mudar
a mudança chega em convite
um pensamento fora do eixo
um incômodo, um desfecho,
é o “e se ” que ganha vida
uma calça velha tingida
é a fresta fria da janela
o primeiro arroz em nova panela
é o passo torto da criança
ou o adeus àquela lembrança
que doía e resistia
à mudança;
mas... sabe a parte boa?
a mudança não quer pressa,
ela te entende, ainda nessa
mesmice, e há quem diga
que ela até gosta de
esperar, é parte dela
repetir às novas eras:
tudo isso vai passar
e que bom que passará,
melhor do que mudar a tempo
é tornar-se tempo de mudar.
busca de mim
já falei o que precisava
já fiz bom uso da palavra
agora, ainda falarei de você
mas não espere vê-las
ou ouvi-las,
vento é mensageiro
mas, primeiro
é verdadeiro
não soprará a você
meus devaneios
em rimas partidas,
talvez as encontre
você mesmo
ao parque, nas águas
nas saídas desse mundo
onde você deixou
cada verso seu
que antes eram meus,
quer me dizer quem sou
novamente? tente,
te obrigarei a ler-me
primeiro
coadjuvante
todos sentados
nesse chão gelado,
em cartas de mesa
respeito a destreza
do embaralho,
sou mais um, apenas,
desentendidos contextos
em cenas e textos
projetados,
se é real, não leve a mal
mas me dói sua presença,
o jogo é a descrença
que se põe
os olhos não se veem
eu não me sinto bem
rastreio na memória
cada toque que é trocado,
tocado já por outro
e toca solto, no presente
não importa o que me sente.
sobra nada desse sonho
só lembrança degradante
de um coadjuvante
sem um resolver decente
costume
não te vejo pra ficar
seu passo não me espera
seu toque não esquenta
seu corpo me afasta,
junto à pressa e mala rasa,
seu vestígio irrelevante
não destaca a sua cor,
mesmo que logo levante,
não destrincho a sua dor,
como seus restos cansados
que se perdem como tantos,
nunca saberão encantos,
nunca ouvirão seus prantos,
nunca chegarão tão perto
quanto os versos que escrevo,
me atrevo e sigo seu caminho
por instante, de mansinho,
vejo aquilo que nos une,
meu vagar indiferente
também segue essa corrente:
repetimos o roteiro
costume
cansaço
da espera, o tempo em denúncia
cúmplice do atraso, álibi em demora
somos casos sem hora, o mero avesso da pressa
aquela que só interessa na reserva do meio,
de passagem, sem assento
sem desconto, compra a dor
e engole choro alheio,
no aperto dos corpos amassados
tem a frente e quer o lado
pra virar mais gente,
há quem tente!
sem sucesso, tudo o que peço
é a vitória do cansaço,
por favor, me tenha em
seu braço, acabe com isso!
prometo chegar ao compromisso
mesmo que omisso
ao sufoco que, hoje, passo.
descanse
não goste de escrever sobre palavras
não gosto da metalinguagem poética
quando se chega aqui, reconheça,
acabou o combustível,
a vida cedeu suas inspirações,
o coração parou de absorver,
o que há? o que foi?
o que atravessa o sentir?
há gosto em descansar, sabia?
há tempo que se para de tentar,
é certo o não encontrar,
respirar o que atravessa e não fica,
lidar com a dor de desaprender
a guardar, a dar nome a tudo,
é parte da receita de mundo
conseguir esquecer, separar,
sair do centro e olhar por olhar,
lembrando do amanhã que chega,
e chegará.
sobreouvir
ao meu silêncio, escuto
sua vida me atravessa
seu interesse, seu destino,
seu medo repentino,
e agora?
o que faço com isso?
sua parte passageira
parte inteira ou fragmentada?
a que fica comigo
foi sentida ou foi roubada?
não sei de perto
memória tem dono?
não sei se abandono
ou me alimento,
quanto ao certo, ainda tento
ver, o que fica no fim?
ao soubreouvir,
me vejo atento
ao conto lento,
torno-te parte de mim
ida
quem parte, convida
ao gole amargo da ida
respira estradas passageiras
conversas sem linhas ou beiras
na espera do gosto da chegada
iminente, traz fim ao movimento
de fora, concede a dança ao peito
que pensa de dentro,
congela o tempo para encenar
a passagem do medo que
a distância traz,
refaz seus caminhos de pontos
de vista outrora incapaz
e percebe:
a ida é a bebida doce
por mais forte que fosse,
desce
e pede por mais,
na chegada de destinos
por seus carros ou sinos
não sabe ainda, mas quer
provar um pouco mais
protocolo
eu preciso dizer
seu horário não me importa,
meu horário não lhe afeta,
deste chão azul que cerca
interligam-se acasos,
nunca desconfiaríamos
que deitamos lado a lado
em 100 anos deste tempo,
mesmo na chance e momento
de escrever a nova linha,
não quebre a minha!
não falhe ao protocolo,
feche a cara e siga à frente,
finja ser sobrevivente
do sistema trivial,
deixe a mim ser dissertivo
ao falar do coletivo
sozinho,
individual
vendo-te
queria fechar os olhos e ver
queria deixar a brisa falar
não é fácil, nunca foi
me impedir de questionar a realidade
as verdades que cercam
os sentimentos que afetam
as vozes já conversam comigo
a intuição já confiante e falante
diz pra tentar de novo
é como ver luz em recomeço
ou levantar do tropeço
um respiro de outro dia
uma história das antigas
pra fazer sentido hoje, pode?
mesmo não a vendo, parece que eu a veria
se eu parasse
de tentar
enxergá-la
lendo-te
olha, sinto muito
minhas palavras cresceram
minhas verdades soltaram
meu olhar insistiu,
saí em busca das respostas
achando que quisesse ouvi-las,
só para ler em suas costas
uma quase essência, um pergaminho
que se lê baixinho, em segredo
uma quase culpa em interpretar
por inteiro cada palavra e sentido,
o medo escondido em silêncios e frases ao meio,
a vontade em respirar a própria vida,
a pergunta que acumula na rotina,
o espaço cheio e ocupado e tão vazio e empoeirado,
o cansaço no amanhã não ser como o do vizinho do lado,
é preocupação e esperança, é dança que olha onde pisa
com sorte e com a lembrança, torce por um sol que avisa:
eu vejo você, vejo sua intenção em ser
vejo um doce que traz um amargo
vejo um canto que só canta assoviado
vejo a vontade em dizer "eu te amo"
vejo o gosto de quem se joga com o corpo
mas calma, a alma não é só feita disso
se for delírio, ignore
se for sentido, apavore
carregamos muitas verdades parecidas
essas que, sem opção, lutei para entender na vida
e é por isso que eu olho assim
antes e agora
sou um outro você
doído, perdido, mandado
sozinho, aflito, calado
confiando em caninos pra esbaldar afeto
nadando em água fria e conversas com o teto
mas a mim, tive um privilégio:
me olhei com tanta força e vontade
que me vi na outra metade
cumprimentei de longe uma pessoa sem medo ou culpa
uma pessoa que busca fala na escuta
que junta quebra-cabeças como uma criança
mas que olha pra frente e ainda dança
então olha só:
não escrevo pra apontar ou revelar
escrevo para compartilhar
sou experimento que fugiu de laboratório,
que arrancou raízes, negou o próprio velório,
desafiou o tempo e o futuro ilusório
pra se olhar, pra se ver
e só acredito que seja assim
somente assim
que a sua luz também
queira acender
desculpa
eu queria conhecer você de novo
do zero, do começo
te abraçar mais forte
dizer que eu te entendo ainda mais
que eu vou te amar no dia seguinte também
se apressa não, eu não deixaria
te olharia mais nos olhos
porque conheceria as suas dores,
te daria de volta
todos os calores
que me fizeram o que eu sou hoje,
p0rque você esteve lá
quando eu mais precisei,
quando eu caí, quando eu errei
você foi quem viu algo em mim
antes de eu falar "eu sei"
e eu realmente soube muito
e não saberia nada sem você,
sem o teto branco que nos olhava
sem a janela entreaberta pra estrada
sem a companhia pra pensar solto
sem o toque e o olhar torto
que contavam tanto, tanto
que contaram nosso tempo também
contaram que o presente é só um momento
e que não devíamos desviar
é tão rápido, rápido demais pra evitar
mas denso, profundo, em tudo que existe
eu sabia que aquele era o lugar,
lugar que eu deveria e queria estar,
por isso, talvez nunca chegue a hora
de ler isso na voz alta que me faz
mas eu vejo, hoje, tudo, tudo o que importa
e eu queria te agradecer um pouco mais
seja aos céus nas estrelas mensageiras
seja ao vento das brisas passageiras
seja ao sol, fim de tarde adormecido
seja ao mar, onda que vem e vai indo
desculpa
desculpa
desculpa
e obrigado
distante
e se eu perder o juízo?
e se eu tirar da frente
essa busca por sentido
o que sobra, o que somos?
toco a mão do vento e danço?
ensaio em casa o seu balanço?
escrevo em caixa alta o espanto
em ver cor no sorriso manso?
envolto em perguntas ainda discretas
trocado por frases que falam nas indiretas
e contam, na medida incerta
o quão difícil é abrir mão
de si, da explicação,
quando um sentimento desperta,
ainda mais aquele que volta!
que segura a mão e solta
ilumina e "alumeia"
no tropeço, pega o pulo
e torna mundo um grão de areia,
precisamente na estação
em que me vejo como outono,
como folha seca ao norte
pra nem depender da sorte:
sopro o som e sigo a brisa
essa em que você me avisa:
ainda vamos muito longe
à caminho
o que sinto? o que devo sentir?
em misto de agonia e comédia e epifania
me vejo atento, imerso em cada sentimento
novo, nem tanto, juntos, são quantos quiserem ser
quantos moldarem o que vou ver
e quando conversarem, sóbrios,
saberei que cheguei lá...
eu, não! o que farão de mim
eu ainda nem os conheço, nem ouso dizer
a graça existe em se perceber, no caminho
já passava devagarinho aqui do lado
precisou reconhecer o ignorado...
há! ele quase chegou lá
sozinho
vida engraçada
ontem, aprendi a te amar de novo
um pouco tarde demais
alguns anos a mais
mas aprendi,
entendi a sua voz cansada
em fim do dia,
entendi a sua respiração
atrasada que me dizia
"ei, queria você aqui do meu lado"
ocupando espaços imaginários
de afeto, aconchego, sendo até demais,
sendo parte sua, tendo a sua parte
em tantas minhas, em linhas matinais
em café e piada, trocando sinais
nos gestos verbais,
vida engraçada...
ontem, aprendi a te amar de novo
mesmo não estando mais
viajante
vales, campos, dizeres
lares, tempos e seres
a viagem de um tempo
no momento mais preciso
em que preciso conhecer
mais de uma vez
o que vai ser
de mim,
o que vai ser?
sem calçada nem calçado
sol nascente é sol do lado
já me abraça sentimentos
de uma vida em meados
de janeiros, fevereiros
meia lua e sóis inteiros
somos nós em nós, faceiros
obras de algum feiticeiro
que cansou do mar ligeiro
e trouxe onda! toda a brisa
entardece e nem avisa
falta cor no céu de pedra
sobra amor em sobrevista
em que a pedra nem se pole
nem precisa, já em si, está
a noite que nos guarda
pega a mão que é gelada
trás pra dentro, encaixa certo
trás bem perto, o resto invento
nem preciso mais falar
da história de um viajante
que em colina verdejante
trouxe o canto a quem encante
e renovou o dom de amar
espelho
ontem, você me enxergou
no toque, embaixo dos panos, deixei que falasse
na mão doce, à vontade, derramei sem classe o pudor
como quem sabe a cor do seu cheiro
escondido em cada travesseiro no caminho, eu vi
vi você de cima a baixo, vi o canto da cintura que encaixo
vi voracidade em olho atento, vi você vivendo o momento
e se perdendo no que foi criado sem ter pensado,
o corpo chaveado se abre em alma-chave do lado,
contorce o tempo que passa lá fora
permeia em toques que acertam local e hora
de serem tocados, sentidos, mordidos, jogados,
respiros, suspiros, odores e tatos
sorriso inquieto e inocente, quase amor adolescente
aquele que viaja sem saber da volta,
que entrega a vida em mão que solta,
que dança em fogo que não queima
que sobrevive a vida mas ainda teima em vivê-la
e vê-la com o olhar mais sincero, mais puro
olhar que entra fundo e entende, sente...
no reflexo, em troca,
apresento tudo que você é e não consegue ver
tudo que você esconde e que ainda vai ser
é uma loucura, esse papo de maluco
em que a palavra sai da frente
e o que resta é tudo...
ontem, você me enxergou
e eu te enxerguei de volta
tudo que você não conta, escapa
tudo que você odeia, é falta
tudo que você respira, é vontade de ser lida em luz alta
forte, imponente, no controle da pira da mente
se torna o ambiente como rocha
exposta a tanto, em qualquer canto
na metamorfose metamórfica
mostra em camadas a beleza em resistir ao tempo,
que mesmo lento, machuca, causa rachadura
mas acorda em manhã de esperança
com sol ao leste trazendo a lembrança
de que amanhã é um novo dia...
não escrevo do lugar apaixonado,
alucinado, iludido ou emocionado
escrevo como espelho limpo
claro e a reluzir,
quando me olham e me tem
se vem, e que bom ser assim
já é a minha verdade
e que todo o amor que exista em frente
na conexão de vidas mais diferente
só exista em liberdade
amor de mão única
em português, a gente diz saudade
em poesia, tudo que deixa vazia
metade da casa, o rádio parado
outrora dançava, a chuva da tarde
que antes molhava, sabia?
que mesmo na busca da cura do peito,
sabendo que dor tinha
causa e efeito, ardia?
era uma coceira, uma alergia
ainda bem que não contagia
seria epidemia de novo,
ter saudade sua
na boca do povo
que agonia!
não desejo a ninguém...
sozinho, carrego peso de mundo
sentindo que o próximo segundo
será também...
em português, a gente diz saudade
mas na verdade, a vontade é
é de inventar palavra nova
que respira, que chora
em hora de ir embora
ali estaria,
que doa mais, que sirva mais
que encaixe mais, que sofra
mas eu?
não sofreria
se, com força, expressasse
e na palavra, justificasse
amar
em uma só via.