gente grande
descobri sozinho
que gente grande
pode ser gente!
gente que sente
e chora na sala
gente que ri
que conta piada
gente que dança
esperança sem salto
gente que agacha
que pula do alto
gente que aprende
sem ser comprovado
gente que ama
que fica do lado
gente que a gente
olha e lembra
da gente,
pensa
“e da gente
o que a gente vai ser?”
já olha pra frente!
tempo vai é correr
quer contar pra gente
da gente?
se sente,
dali se acha o viver
corte torto
um poema fora
eu carrego culpa,
torto corte mortal
angula errado, afinal,
metade da frase
já me insulta,
capricho perdido
em mãos fáceis
não-ágeis,
dispostas a tanto
e faltando pudor
a seus meios,
um certo rancor
entrelaça anéis
e anelares feios,
a força de braço
em régua
entorta o pescoço,
em corte grosso desfaz
a ideia em pedaços!
desisto por hoje
tamanha a besteira!
melhor tê-la
em canto da mente
a ver o deprimente
estrago das linhas
na lixeira
a hora-poesia
faço poesia
como faço a barba
quando desconheço
linhas do rosto,
como estico
e alongo no limite
até doer no osso,
como entendo o tempo
relendo o céu
e soprando vento,
como envio carta
no medo de lê-la
em palavra farta,
faço poesia
no surto e na sorte
sem medo de gente
com dente rangente!
faço poesia
ficar no presente
na vida já forte,
nascente ao poente
do inconsciente,
à frente da morte
às semanas
segunda? lenta
terça? aguenta
quarta é feira! juro
quinta é quase! aturo
sexta, queira? agora
sabe do galeto? adora
domingo? dormindo
nem movo e
droga!
é a segunda
de novo
desajeitos
desajeitada vida lenta
vida logo ali na frente
vida sobra na esquina
vida falta em sol poente
desajeitada casa aberta
casa amada e descuidada
casa minha nada sobra
casa sobre a minha morada
desajeitada carta morta
carta solta em carnaval
carta volta em fevereiro
carta sem ponto final
desajeitada poesia
poesia de boteco
poesia em fala fria
poesia de jaleco
desajeitados desajeitos
desse jeito, nem me ajeito
deixo o peito encher por fora,
já por dentro...
sabedor
sabia tudo!
tudo de mim
tudo de você
tudo de tudo
o tudo dos todos,
toda vida
toda via!
todavia,
via a fala
e a fala vinha,
da fala, tinha
tudo
até ter tido
como tolo,
todo tolo
tolo atado
tolo em tom
de tolo errado,
tanto tolo
me foi dado
tudo e todos
atolado,
me perdi
da rima fácil
confundi
lado em
quadrado
joguei fora
dicionário
me tornei
vocabulado
meio-termo
não sou rico, nem aqui fico!
faço parte dos contentes
de pouco grito,
nem tenho nome lido
entre linhas telefônicas,
as tônicas perdidas
em solos literários, tidos
como libertários da nova
poesia... cadê?
onde acho a minha?
pareço começar
onde termina, não sei
a rima que fala língua
dos desejos alheios,
inteiros em versos
inteiros e meios
meio só de quem escreve
meio perto do meio...
entendi!
ando longe, distante
meio perdido em maio...
é claro! mais claro que isso
é poesia minha,
no capricho amornado
de ensaios de maio:
meio-termo
viagem de casa
em voz alta
falo o caminho
da sala, do vinho,
atravesso tapetes
de linho, algodão,
a curva da quina
do armário de chão,
janela de vento
sussurra uma fina
camada, poeira,
em pé, geladeira
chegou na mão
sem nem eira,
em beira de mim
tropeço, mas chego
cozinha ao banheiro
em verso, um caminho
sem fim indica
o sentido inverso,
onde fica?
em casa lírica,
sou nômade perdido
em cômodos
do meu próprio
universo
voz do vento
não é fácil ler os outros
ágil tropeça em sílabas,
lento atrasa as filas,
contemplou? exagerado,
desconfiou? tá errado,
em troca de sujeito
achou um predicado
perdido... achado?
nem sei mais,
não sei ler os outros
como leio sozinho,
de fala mansa
baixinho
é como aprendi,
uma mão aqui
um pé ali
corpo se forma
em ritmo ajeitado,
vírgula é respeito
e é respeitada
como deveria,
em terra de poema
sou sinfonia
ou tento...
não é fácil ler os outros
se venta, sento e aprendo
vento conta o que sabe
da minha varanda
escuto do jeito que sei:
sendo
Sapatos
vou-me embora
com seus sapatos
aqueles, atados
em memórias,
sujos dos lados,
presente de quem
entendeu, um dia,
que alegria é
tê-la amado,
mais que isso,
tê-la visto
interpretada
em palavras
outras, soltas,
sem esperar
que a vida
era mansa...
bom, nada resta,
só os fatos,
nesta noite
seus sapatos
são solas
em festa
que descansam
na dança
de novos atos.
já pensou?
já pensou não conseguir
falar às pessoas
o que sente?
não ter palavras
como porta de entrada
da mente,
o que fica da gente?
fica rolo enrolado
fio enfiado
bolo embolado
asas sem frente?
mega sem quina
começa, termina
casa em esquina
serve? decente?
do silêncio, penso
e trago parte: um perigo!
mas em terra falante
berro tanto, soluçante
só em poder falar
contigo.
Prato do almoço
um quarto
uma cama
uma crise,
um vento
um tempo
que avise,
passei
sozinho
os cafés
de agosto,
agora
um outubro
sem gosto
me rouba
o espaço,
peço açúcar,
o cardápio,
gentileza!
na mesa
já seca
só via
tristeza...
que alegria!
o prato do almoço
é a crise do dia.
sobra de ontem
fundo de geladeira
aroma não confunde,
são pedaços inteiros
de um mofado amor,
guardado em gelo
gelado, amassado
atrás de potes
e ultraprocessados,
deixei,
pensei que ficaria
bem como gostava
enganei,
o gosto se perdeu
a luz, agora, é breu
o nome nem é mais
seu...
sem cor, sem toque,
sem lactose, glúten,
e ainda que me contem
é apenas mais uma
sobra de ontem.
fim de festa
tudo foi dito
todas as letras
descobertas
números infinitos
contados...
que nos resta?
somos fim de festa
sem bateria social,
usando noite
pra encontrar
verbo guardado
em vocabulário
alheio, falado
em língua
de ruído noturno
sem dicionário,
tomo pra mim
em pé de ouvido
o seu sussurro,
da sorte, quem sabe
me contradigo?
troca-se o som
segundo em transição
faz momento,
da pergunta ambígua
e de corpo atento,
a resposta ouviria
até às orelhas
de Aurélios:
quero
vidinha
eu vejo você
aí mesmo
na calçada de casa
rindo sozinho
da próprio desgraça,
contempla o som
da vida sem cheiro,
o perdão à mãe
que chega, longe
esqueceu da pia
cheia...
eu vejo você
de novo, todo dia
que saio de casa
no vizinho, na tia
que passeia na praça,
na moça da banca
no bolo da massa
que até cresce, parece
mas murcha em vento
norte, daqueles, forte
que levaria embora
o pior dos sonhadores
mas enquanto o bolo assa
unem-se as dores,
rancores enlaça:
ê, diacho,
vidinha sem graça.
o último café
já tarda? cedo
nem são cinco
e eu em meio
a passatempos,
janelas fecham
em ritmo e peso
de quem já
encerrou
por hoje,
o gole esfriou
ficou pra noite,
devo?
bebo, assumo,
devo ir a fundo
mais uma vez,
não desceu bem
passo outra vez?
já estou nessas mesmo
a borra nos dias
e noites em pé,
água fria, filtro novo
ai, meu deus...
lá vou eu de novo
pro último café.
te leio, pai
quarto esquecido no tempo
guarda última lembrança,
caixas, sapatos, casacos,
um pai ao vento
das cinzas descansa,
na dura vida interiorana,
versos eternos
em cadernos
deixou
livro solto emprestado,
o bairro amarelado,
o solteiro casado
o gigante coração,
o carlos trapaceiro,
o beto caloteiro,
o zé da fé lotada,
ao passo da canção,
dançou
conta gota em pingo d'água,
cheiro em casa amada,
flor que se ouça,
do beijo na onça,
do brejo, esperança
da asa própria
voou
da vida, um sopro,
da linha, um louco,
da frase, verdade,
da fase: liberdade
lutou
é, pai,
guardo teus segredos
em espaços sagrados,
vejo teus olhos, cansados,
em luz de vela a tecer
os próximos anos,
até ser pego de surpresa
em correnteza universal
seguiu: o fluxo natural
mal sabe
dos próximos versos,
incertos como foram,
seguem sendo,
seguem lendo,
virou novela...
se acendo vela,
vejo como você,
sua linda vida
lida de cima...
prazer.
Transbordei
te sufoco, parece
nunca pensei
dizer isso,
nunca fui
desse tipo,
eu mudei,
não precisou
avisar,
o silêncio
entendeu
a intenção,
a distância
sem medida
e nem precisa
medir...
já me vou,
não em busca
pois já sou eu
quem me acorda,
"cuidado!" avisaram,
nem notei:
passei da borda,
transbordei.