espelho
ontem, você me enxergou
no toque, embaixo dos panos, deixei que falasse
na mão doce, à vontade, derramei sem classe o pudor
como quem sabe a cor do seu cheiro
escondido em cada travesseiro no caminho, eu vi
vi você de cima a baixo, vi o canto da cintura que encaixo
vi voracidade em olho atento, vi você vivendo o momento
e se perdendo no que foi criado sem ter pensado,
o corpo chaveado se abre em alma-chave do lado,
contorce o tempo que passa lá fora
permeia em toques que acertam local e hora
de serem tocados, sentidos, mordidos, jogados,
respiros, suspiros, odores e tatos
sorriso inquieto e inocente, quase amor adolescente
aquele que viaja sem saber da volta,
que entrega a vida em mão que solta,
que dança em fogo que não queima
que sobrevive a vida mas ainda teima em vivê-la
e vê-la com o olhar mais sincero, mais puro
olhar que entra fundo e entende, sente...
no reflexo, em troca,
apresento tudo que você é e não consegue ver
tudo que você esconde e que ainda vai ser
é uma loucura, esse papo de maluco
em que a palavra sai da frente
e o que resta é tudo...
ontem, você me enxergou
e eu te enxerguei de volta
tudo que você não conta, escapa
tudo que você odeia, é falta
tudo que você respira, é vontade de ser lida em luz alta
forte, imponente, no controle da pira da mente
se torna o ambiente como rocha
exposta a tanto, em qualquer canto
na metamorfose metamórfica
mostra em camadas a beleza em resistir ao tempo,
que mesmo lento, machuca, causa rachadura
mas acorda em manhã de esperança
com sol ao leste trazendo a lembrança
de que amanhã é um novo dia...
não escrevo do lugar apaixonado,
alucinado, iludido ou emocionado
escrevo como espelho limpo
claro e a reluzir,
quando me olham e me tem
se vem, e que bom ser assim
já é a minha verdade
e que todo o amor que exista em frente
na conexão de vidas mais diferente
só exista em liberdade