lendo-te

olha, sinto muito

minhas palavras cresceram

minhas verdades soltaram

meu olhar insistiu,

saí em busca das respostas

achando que quisesse ouvi-las,

só para ler em suas costas

uma quase essência, um pergaminho

que se lê baixinho, em segredo

uma quase culpa em interpretar

por inteiro cada palavra e sentido,

o medo escondido em silêncios e frases ao meio,

a vontade em respirar a própria vida,

a pergunta que acumula na rotina,

o espaço cheio e ocupado e tão vazio e empoeirado,

o cansaço no amanhã não ser como o do vizinho do lado,

é preocupação e esperança, é dança que olha onde pisa

com sorte e com a lembrança, torce por um sol que avisa:

eu vejo você, vejo sua intenção em ser

vejo um doce que traz um amargo

vejo um canto que só canta assoviado

vejo a vontade em dizer "eu te amo"

vejo o gosto de quem se joga com o corpo

mas calma, a alma não é só feita disso

se for delírio, ignore

se for sentido, apavore

carregamos muitas verdades parecidas

essas que, sem opção, lutei para entender na vida

e é por isso que eu olho assim

antes e agora

sou um outro você

doído, perdido, mandado

sozinho, aflito, calado

confiando em caninos pra esbaldar afeto

nadando em água fria e conversas com o teto

mas a mim, tive um privilégio:

me olhei com tanta força e vontade

que me vi na outra metade

cumprimentei de longe uma pessoa sem medo ou culpa

uma pessoa que busca fala na escuta

que junta quebra-cabeças como uma criança

mas que olha pra frente e ainda dança

então olha só:

não escrevo pra apontar ou revelar

escrevo para compartilhar

sou experimento que fugiu de laboratório,

que arrancou raízes, negou o próprio velório,

desafiou o tempo e o futuro ilusório

pra se olhar, pra se ver

e só acredito que seja assim

somente assim

que a sua luz também

queira acender

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desculpa