Remendo
eu sempre fui isso,
sempre fui disso,
contei de tantas formas
pra ouvirem longe,
e ouviram, mas...
não quem precisava,
não quem estava perto,
normas não faladas
eram escritas,
ainda posso ouvi-las...
foge
eram tantas, ingratas,
frutos da rigidez
de quem as fez,
só vi depois
mais tarde,
em voz e ego
quem martela
desviava o prego:
era dor,
se acertasse
um a um,
logo teria
gaveta de lembrança,
aquela, de criança,
não queria vê-la pronta
e eu entendo,
o amor que buscaria
mesmo em poesia
não faria nem remendo.
Sonho-poesia
semana de cama
já sinto o cheiro
de fronha, de quarto
mal abro cortinas,
respiro partículas
de sonhos inéditos,
foras de cartaz
encho pulmões
e durmo
pra correr atrás
de mais um
significado...
pode não parecer
mas eu os acho,
só encontra
quem procura
na escura da noite
o laço perdido
em gaveta apertada,
história amarrada
em memórias
perfeitas, prontas,
inteiras, tanto
que joguei pra trás,
sabia, se precisasse
fecharia os olhos,
fecharia mais...
te veria em ponta
de novo sonho
novo conto,
completa o que tive
anos atrás, a trilogia,
o sonho-poesia
após anos
nos deixa
interpretar:
enterra-nos, força!
aprenderemos a cavar.
a boa falta
quem sente, sabe
sobre distância,
sobra...
dobro, passo
adiante,
dói como antes,
como nunca,
sorte sua
nunca vê-la
longe,
sinto, é o certo...
na dor, de perto,
a resposta
ressalta:
enquanto respirar
não existirá
a boa falta.
a rua do pinheiro
a mesma luz
os mesmos passos,
em caixa, a levanto,
a tampa já espera
a força em tê-la
aberta:
nada ali,
nada lá...
talvez, esperar
não me traga
o tempo de volta,
luz e água
não informam
a resposta
que busco...
de consolo, contanto,
torço comigo
a um novo dia de carta
e antes que parta,
mensageiro, anote,
quem sabe haja sorte:
se houver recorte,
cheiro e cor,
é para mim de amor inteiro,
e se assim for, amigo carteiro,
traga ligeiro,
é para a Rua do Pinheiro.
hora de partir
chegará a hora
inevitavelmente,
quem sente, fica
mais um pouco,
senta em quina
de consolo
e chora,
chora bem,
chora tanto
que nem pensa,
sabe que presença
não se faz
em poesia,
respira alto
já num salto
endireitado,
lembrou da vida
que se vive
acordado,
agradeceu...
em tempo, percebeu:
era hora de partir.
eu ainda erro
eu ainda erro
ontem mesmo, errei de novo
trouxe palavra errada
em tom sem cor,
na dor do outro, já vi,
mancha a alma
em vergonha, peço
encarecidamente,
me escute outra vez!
em desculpas, teço
um novo parecer,
era melhor escrever
para ter certeza...
em tempo, arrisco,
nos breves segundos
ao avesso:
eu ainda erro
mas encontro
na palavra
um recomeço
Encontre o poema em você
em algum canto, parado
falante, lembrado
quando a prosa é boa,
em garoa, chove, soa,
sou parte da conversa,
e de verso em verso
penso em partes, paro,
respeito, ajeito o tom
e já me entendem,
sou obra lírica
na mímica da vida,
não lida até o momento
que sento em roda e
me passam
a palavra,
falo e sou lida,
linda, entre linhas,
enfim:
entendida.
cadê a poesia?
papel e caneta
já não via há anos,
escondeu-se em frente
tão na cara, tão potente,
tão longe...
precisei de voltas
e voltas,
música, teatro,
do canto, fui nato,
esqueci da poesia...
como pude?
em relapso ímpar,
encontrei a amiga
esperando, vívida
e viva, sempre viva...
me contou de ontem,
sempre esteve aqui
no jantar mais trivial
às luzes de natal
"pode até me perder"
disse
"mas eu já sou você...
e você vai me achar
de novo"
em tempo
aceno de longe
na sua partida,
nem viu,
o semblante amargo
que fica aqui
do seu assento
já em movimento,
olha, já foi...
um sopro.
em tempo de afeto
me afeta é tanto
olhar para dentro,
o centro é algo
dolorido,
outrora encantava,
colorido, com tanta
coisa pra dizer,
tanto canto para amar,
gastei-o matando-o,
o famoso passatempo...
só hoje eu me escuto
e já consigo articular
se ainda é tempo,
se eu ainda tento,
ainda há tempo pra falar.
A trovoada
pintei por anos
em bairros distantes
barros, instantes,
prática sem teoria
e quem diria,
lá eu veria
todas as cores,
do azul à lima,
o afeto, o clima,
não havia esforço
em ser só cor,
ainda torço
o meu renascer
em pedra, me ver
pintar, de novo,
o amanhecer
em terra de povo
que clama a arte
"mas arte..." reclamam,
não veem
se veem, só vem
arremessada,
engolida, degustada,
cuspida e sem gosto,
no rosto,
o vazio de quem
não soube ouvir
a trovoada
infância de poeta
em turma grande
aprendia-se a ler,
escrever, refletir,
redação era líder,
na inocência, pureza,
um olhar de cor
via além da escrita,
não veria outra coisa
senão a palavra viva,
em curso, ritmada,
respirando, dançava,
cansando, parava,
provocava a falta,
convocava a volta,
e se revira, volta,
e assim via a mundo,
de trinta, um só
mas se bastava,
a poesia, ela salvava
por inteiro
a infância
e a criança
do arteiro.
O lá Maior
em toque solto
a nota é clara
aberta, direta,
quem a tocou,
sabia,
a sua grandeza
era primária
a tríade saudava
o sol, a mim,
em sétima
quinta é sexta,
o som da dúvida
e da resposta
trazem a aposta
de um soar
em cor.
olá, maior,
toque-nos
coisa de amigo
tanto tempo,
tinha tanto
e tampouco via,
pés no amanhã
que viriam logo,
e vieram.
onde perdi a cor?
procurei em caixas,
cápsulas, fotos...
ah, lembrei,
o tempo guardou
pra mim, de mim,
foi um favor
coisa de amigo
eu não manteria...
sozinho
a boa poesia
acordou diferente
em terça-feira lenta
sentiu que não faltava
a palavra na garganta
não é sempre assim
às vezes, a linha é tempo
que escorre, sem pausa
e sem piedade,
cabe à saudade dos dias
contar de mim, para mim
que a vida é linha, sim,
linha solta
que rima, aberta,
de cima, desperta,
e dança
como quem não quer nada
e não queria,
não queria ter
não queria ser
mas quando soube
já estava, já era,
era uma boa poesia
me sinto pronto
sabe, é um sensação
um gole de manhã
que abre a garganta
e fala por você
contraria o instinto
desafia a inércia
joga e encara o soco
pra que não se esqueça
antes que anoiteça
"você... consegue"
me olhou no olho e disse
como um pai
um pai, sabe?
e ali, eu acreditei
acreditei em tanta coisa...
não vou acreditar nisso?!
sei bem minhas crenças
que crescem, amadurecem,
transformam, escutam
e de tanto escutar,
tanto...
me sinto, ponto
eu aprendo a falar
e enfim conto
que me sinto pronto
nunca falei das flores
nunca falei das flores
elas sabem do porquê
de tão floridas, somem
se esvaziam os sentidos
e o que fica é cor
pétala e forma, conforma?
talvez a quem as tinha
sim
nunca falei das flores
elas nem me deixariam
ririam se assim fosse
de onde viu-se, foi-se
nem precisou olhar atrás
atrás de ser falada, vista
com toques de malícia
quem as leva ao longe
nem as cheira
é vento
nunca falei das flores
nunca tive tempo
se falasse, malfalaria
seria cético, catártico,
em malabares poéticos
no fim, a defenderia
ligando os pontos
eu a veria
a flor que eu falaria
efloresceria
amanhã sonharei de novo
ontem, sonhei com você
amanhã, sonharei de novo
me carrega, pensamento
me mostra o indizível
sem palavras, sem pudor
era hora de acordar
em hora nao tão bem-vinda
em sol, a fresta brinda
sou eu em desencanto
ontem, sonhei com você
amanhã, sonharei de novo
é daqueles temporários
esqueço em estantes
andando pela casa
já falei com as paredes
em monólogos fracos
batem palma… frustradas
“mais um dia sem ela”
a resposta
ontem, sonhei com você
amanhã, sonharei de novo
“como isso?” perguntaram
“bruxaria? reza braba?”
quem me dera, disse eu
o suor era no olho
treinado a ficar fechado
só pra ver mais um bocado
aquele segundo de sonho
quase lá…
ontem sonhei com você
amanhã talvez não sonhe
em noite escura, ando breve
rumo à manhã rotineira
faço caso, me ignoro
abro logo a torneira
pingo d’água, consolado,
parto com a esperança
de fechar os olhos cedo
e abrir na sua memória
ontem, não sonhei com você
amanhã, não sonharei de novo
logo em segunda-feira
ouço a rádio, só besteira
faço o mate, ligo a mente
sintonizo que nem gente
no calor da madrugada
de pé e mão gelada
entendi
eu
que tanto absorvi
reflito em voz audível
que o encontro dos meu sonhos
era o encontro do impossível (?)