te leio, pai
quarto esquecido no tempo
guarda última lembrança,
caixas, sapatos, casacos,
um pai ao vento
das cinzas descansa,
na dura vida interiorana,
versos eternos
em cadernos
deixou
livro solto emprestado,
o bairro amarelado,
o solteiro casado
o gigante coração,
o carlos trapaceiro,
o beto caloteiro,
o zé da fé lotada,
ao passo da canção,
dançou
conta gota em pingo d'água,
cheiro em casa amada,
flor que se ouça,
do beijo na onça,
do brejo, esperança
da asa própria
voou
da vida, um sopro,
da linha, um louco,
da frase, verdade,
da fase: liberdade
lutou
é, pai,
guardo teus segredos
em espaços sagrados,
vejo teus olhos, cansados,
em luz de vela a tecer
os próximos anos,
até ser pego de surpresa
em correnteza universal
seguiu: o fluxo natural
mal sabe
dos próximos versos,
incertos como foram,
seguem sendo,
seguem lendo,
virou novela...
se acendo vela,
vejo como você,
sua linda vida
lida de cima...
prazer.